terça-feira, 4 de março de 2008

"Prós e Contras" - os prós para a ministra, os contras para os professores

A máquina trituradora da comunicação social contra os professores está em marcha. Os comentadores oficiais e oficiosos estão todos de prevenção para acudir aos incêndios. Uns disfarçam mal. Outros vão servis ao assunto. Muitos não sabem do que estão a falar e divagam. Outros omitem. Quase todos debitam as frases assassinas, algumas com meias verdades – mas que por serem meias ludibriam a opinião pública -, que agradam ao governo e protegem a ministra. Para complementar os comentadores favoráveis ao governo, organizam-se, se necessário, programas especiais. Exemplo típico é o “Prós e Contras” que, em duas emissões sucessivas, pega no tema da Educação.
No da semana passada, 25 de Fevereiro, o debate, não tendo corrido de forma especialmente favorável aos professores - dadas as limitações de tempo que lhes foram necessariamente impostas, e dada a heterogeneidade e a desarticulação das intervenções dos professores presentes - , redundou, contudo, num verdadeiro desastre para a ministra da Educação, dada a sua inépcia e a sua incapacidade para explicar seja o que for, a não ser repetir, ela também, as mesmas frases e expressões já gastas. Ora, havia que mistificar essa incompetência da ministra, organizando um outro “Prós e Contras” esta semana, programa que ainda está a decorrer, agora sem a presença da ministra – não fosse ela espalhar-se outra vez -, e, curiosamente também, sem a presença de qualquer representante dos professores em luta. Estas ausências não devem ter acontecido por acaso, claro.
O programa poderia ser, mesmo assim, muito útil, se fosse honesto. Mas não foi. Em vez dos dois lados em confronto, optou-se pela presença de especialistas. Nada tenho contra eles. E, de alguns, até gosto. Mas, pelos intervenientes, viu-se logo que o programa ia ser orientado contra os professores. É que os intervenientes, via-se logo, não iam atacar de forma directa e objectiva a especificidade daquilo que indigna os professores. Iam generalizar. E, depois, lá estava a coordenadora do programa para “puxar” as frasezinhas que lhe interessavam, para “passar” à frente raciocínios que via encaminharem-se para aquilo que ela não queria que fosse aprofundado, para tirar as conclusões que tinha que tirar, fossem quais fossem as intervenções que se fizessem.
E assim foi. Fátima Campos Ferreira funcionou sempre como uma espécie de comissária política do governo e da ministra da educação. Insistiu muitas vezes na expressão de “guerra” que trouxe estudada, e que era a expressão “estado de sítio”, dando sempre a entender que a sitiada era a ministra, coitada, e que os sitiadores – quase saqueadores malfeitores -, eram os professores que não queriam reformas.
Sempre que achava que podia, interrompia o discurso, e perguntava assertivamente se o interlocutor “apoiava”, sendo que o “apoiava” se dirigia sempre à avaliação, sabendo de antemão que toda a gente, a começar pelos professores, apoia a avaliação, mas não este simulacro de avaliação. Mas ela só queria que eles dissessem que sim, sem que entrassem em outros considerandos que poderiam retirar o aproveitamento propagandístico que ela queria dar ao sim.
Não se esqueceu nunca de repetir que, afinal, a avaliação era para ser cumprida até 2009, dando a entender que havia muito tempo, e omitindo sempre que essa avaliação respeita já ao ano de 2008.
Insistiu repetidamente nos sucessos escolares que a ministra reivindica, e que, numa perspectiva burocrática, até são verdadeiros, mas esquecendo-se sempre de como eles têm sido orientados, motivados, pressionados e quase impostos, para ficarem bem nas estatísticas.
A Fatinha, diligente comissária política, como percebeu, ou lhe disseram, que a ministra já não é ministra de facto - porque completamente desautorizada por decisões e procedimentos que desafiam toda a lógica, e que cavaram um abismo intransponível já, entre o ministério e os principais agentes educativos que são os professores – sempre que podia, quase que forçava os intervenientes a dizerem que a ministra não precisava de sair, ou que podia mesmo recuar sem perder a face, ou aceitar a mediação de agentes externos proposta no programa, proposta essa que é a mesma coisa que dizer que a ministra já não tem condições para continuar.
Em síntese, e quanto a esta moderadora-comissária, a ela só lhe interessava vincar que: os professores são uns malandros que provocaram um autêntico estado de sítio; que os professores não querem ser avaliados; que há muito tempo para a avaliação, que vai até 2009; que a ministra não precisa de sair, mesmo recuando, mesmo aceitando uma mediação.
Mas nem tudo correu sobre rodas à senhora diligente. Para tal, basta lembrar algumas afirmações nada convenientes para os propósitos da Fátima, comissária política e bombeira de serviço.
João Lobo Antunes, por exemplo, fala na necessidade de esclarecer e de apaziguar; diz que admira os professores, que o seu exercício de autoridade é delicado, e que estes não podem ser desautorizados; diz que se instalou uma crise de confiança, e que não há confiança para se fazerem as avaliações na forma prevista; diz que há que valorizar o juízo moral do que é ser professor; diz que não se pode avaliar por um diagrama como o que é proposto.
Manuel Vila Verde Cabral afirma que já é tarde para sair da crise; que seria necessária uma experimentação do modelo, que lhe faz lembrar a rede do metro de Londres; que seria no mínimo exigível uma experimentação do modelo, antes da sua aplicação generalizada; que o governo escolheu um braço de ferro demagógico com os professores, demonizando-os, tendo com isso provocado uma coisa que já não é reivindicação corporativa, mas sim uma revolta.Fátima Campos Ferreira lá foi levando a água ao seu moinho. Os intervenientes não tiveram culpa. Mas tinham que ter ali alguém que objectivasse as verdadeira razões de queixa dos professores. Mas esse alguém não estava lá. Por que seria?

10 comentários:

paulo g. disse...

Linkado e transcrito no Umbigo.

TempoBreve disse...

Atenção:

O 1º. comentário tem palavras sobrepostas, que podem dificultar a leitura.
O que lá está escrito é:
"Linkado e transcrito no Umbigo". Para acederem ao Umbido basta, como sabem, clicar no nome do autor, "paulo g."
Obrigado ao Paulo Guinote.

Anónimo disse...

Esse alguém não estava lá por tudo o que acaba de dizer de forma rigorosa.
E, não só não lhes convém quem diga a verdade, como convoca o Partido Socialista um comício de desagravado contra a Senhora Ministra, no Porto,no dia 15 de Março.
Foi assim que os judeus se viram empurrados para os campos de concentração da vergonha e da humilhação.
Desde já peço desculpa pela comparação,mas as coisas começam quase sempre desta maneira- denegrir até à exaustão um indivíduo, uma raça, uma qualquer coisa incómoda que convém eliminar.
O partido Socialista está à beira de um ataque de nervos e elegeu s vítimas mais fáceis para ganhar as eleiçãoes. A ver vamos!

Carpe Diem = ) disse...

Interpretei a sua resposta como sendo um sim, logo criei um blog.
Espero que me dê a honra da sua nobre visita na minha humilde casa.
Um abraço
p.s-"Carpe Diem" ja estava prienchido, por isso decidi acrescentar mais umas palavras ainda assim, gostaria que soube-se que o espirito é o mesmo.

TempoBreve disse...

Caro anónimo!

Obrigado pelo seu comentário. É de arrepiar. Mas o pior é que é mesmo como diz.
O comício de desagravo mostra mesmo que o PS escolheu um alvo. Normalmente faz-se um comício nacional para medir forças com outro partido político concorrente. Mas o PS, não. Escolhe os professores.
Não o vão conseguir. Eu, pelo menos, não hei-de desistir de lutar contra isso enquanto tiver pelo menos uma pessoa que vá comigo. E, se o conseguirem, o país perderá os bons professores que tem, e irá assassinar a alma dos que terão que se resignar os "novos mandaretes".
A ver vamos.
No próximo dia 8 ver-se-á. Novas ideias hão-se surgir para continuar a luta com eficácia.
Um abraço.

TempoBreve disse...

Carpe Diem!

Já fui ao seu blogue. Parabéns. Não tenha pressa em escrever muitas coisas. Vá com calma.
Não se esqueça de indicar um E-mail.

Um abraço.

Anónimo disse...

Espero que tenha ouvido o telejornal. A avaliação vai para a frente e ninguém demove quem pode. E você gostava era de pertencer ao Conselho Científico e ficava igual aou outros. Eu conheço a peça.

Elisabete disse...

E a "saga" continua... A Ministra vai ter, agora, o tempo de Antena da Judite de Sousa.
Até tenho vergonha de ter sido colega de curso da Fatinha. E a Judite a mesma coisa. Andou lá na nossa Faculdade de Letras do Porto e também se licenciou em História. Serem professoras elas não quiseram. Por que será? Deve ter sido por não quererem pertencer ao grupo dos privilegiados.
Força! Estamos todos juntos nesta luta.
Um abraço fraterno e solidário.
Elisabete

TempoBreve disse...

Caríssimo anónimo!

1 - Obrigado pelo elogio. Na verdade, ao dizer que eu "ficava igual aos outros" se pertencesse ao dito Concelho Científico, está a reconhecer publicamente que eu não sou igual a esses outros. E essa distinção honra-me. Como sempre me honrou.
Mas você diz que me conhece. Por isso, não precisa que lhe explique. Sabe isso muito bem.
2 - Mas, verdade verdadinha, eu acho que você está a brincar, só para me provocar. Você gosta do que eu digo, e, então, toca a provocar-me a ver se eu escrevo mais.
3 - Não sei quem você é, nem tenho curiosidade em saber. Mas quero-lhe dizer que tenho a certeza que você não é nenhuma das pessoas que eu conheço do PS. As pessoas que eu conheço e que estão no PS, essas merecem-me, sejam quais forem as nossas divergências, alguma consideração.
4- Repito o que já lhe disse: venha quando quiser, e critique o que quiser, com inteira liberdade. Mas não seja insultuoso. Use alguma inteligência. Olhe que não custa nada.

TempoBreve disse...

Cara Elisabete!

A saga continua. Entrevista atrás de entrevista. Interlocutores devidamente seleccionados. Até do lado dos professores.
Isso, contudo, para quem anda nestas lides, é muito natural que aconteça. Para nos é um bom sinal. É sinal que publicamente nos desrespeitam, mas secretamente nos temem. Se não não se preocupavam tanto, nem exibiam tanto descaramento.
Você já viu aquilo do PS marcar um comício de desagravo contra os professores? Isto é um caso nunca visto. Os comícios nacionais cos partidos costumam servir para medir forças com os partidos da oposição, principalmente com aqueoles que podem ser alternativa ou alternância. Mas o PS, não. Arranca em força contra os professores. Já viu a import^sncia que nos dão? E a raiva com que acirram os cães contra nós? Eu tenho uma explicação.
Tenho muitos amigos no PS. Que me desculpem. Mas eu tenho que falar no PS, pois é esse partido-aparelho que está contra nós, sem argumento algum razoável.
Onde andam os professores do PS? No nosso meio? Claro. E eu sei que andam. E aprecio. Mas eles também são do partido. Também lá têm de defender o Ensino Público que querem matar. Têm que mostrar que há outras políticas no PS, que não apenas estas aberraçações que nos querem impor. À força. Como Salazar. Nós precisamos desses professores do PS. Onde andam?
Apetecia-me perguntar também onde é que anda o Manuel Alegre. Mas não pergunto. Para a não desgostar.
UM abraço, sim?