segunda-feira, 14 de abril de 2008

Braga voltou à rua e sorriu cansada

Hoje. Dia 14 de Abril. Pela segunda vez, em Braga. A partir das 21:00. Foram chegando. Desta vez mais cabisbaixos. Mais receosos. Apareceria alguém? E quantos? Os bastantes para continuar a ter força e respirar esperança? Um número digno? Houve de novo abraços. Mais vagarosos. Menos palavras. De novo sorrisos. Cansados. Alguns quase tristes. A mesma afectividade da primeira vez. E sempre a mesma pergunta: quantos estarão aqui? E lá se ouvia uma e outra voz mentindo. Muitos.
A praça foi-se compondo. Às dez horas respirou-se de alívio. Afinal, estavam mesmo muitos. Não tinha havido grande mobilização. As pessoas gastaram-se na espera do "entendimento" entre os sindicatos e o ministério. E o entendimento, nem de propósito, apanhou-os fora da escola, no fim de semana. Só hoje é que se avançou no contacto um a um. E havia aquela coisa nada bem digerida do tal "acordo" que, afinal não é. E os de longe, hoje não vieram. Mas, afinal, mesmo assim eram muitos. Uns 1500 professores. Contas por defeito. Um sucesso, dadas as circunstâncias. Os professores de Braga continuam de pé. Cansados. Mas de pé. E sem vontade de se venderem por trinta dinheiros.
Ouviam-se queixas. Ouviam-se dúvidas. Faziam-se perguntas a que não se sabia ou não se queria responder. Depois houve discurso. Oficial. Com aparelhagem a ampliar o som. Ao contrário da primeira vez. Os professores foram ouvindo. E bateram palmas uma e outra vez. Nunca quando se "explicava" o "acordo", que, afinal, não é; sempre que ao de leve, e numa perspectiva longínqua e desresponsabilizante, se falava nos verdadeiros motivos da queixa e da mágoa que os professores guardam no peito.
Rostos preocupados. Rostos interrogativos. Pessoas a quererem crer. Ainda. Pessoas conscientes que fizeram tudo. Que deram tudo. Física e psicologicamente
. Em nome duma causa justa: a dignidade, o respeito, a Educação pública, a justiça, a democracia, a solidadariedade. Mas que começam a duvidar ao ouviram cantos de vitória no acessório, sem que se enfatize o essencial. E o essencial é a revisão urgente do Estatudo da Carreira Docente; o essencial é o anulamento daquele concurso injusto e ilógico para "titular"; o essencial é rever o Estatudo "anormal" e irresponsável do Aluno; o essencial é a exigência de um modelo de Gestão Escolar, que não ofenda a democracia e que não deixe "partidarizar" as escolas; o essencial é a rejeição do iníquo modelo de avaliação proposto, e não a sua aplicação "suave" durante dois meses.
Dadas as circunstâncias, foi muito bom ver mais de 1500 professores sairem à rua em Braga. E foi muito bom ver que ainda não desistiram. E que mostraram a todos - até aos sindicatos -, que não será pela parte deles que o barco se afunda.
Que os sindicatos cumpram a sua função
. Mas que não se iludam com pequenos pedaços de toucinho "estragado". Os professores, esses não se iludirão.
Obrigado, colegas de Braga.
É sempre bom estar entre gente.
Gente cansada.
Gente magoada.
Mas gente que é gente, e que segue em frente.

2 comentários:

Elisabete disse...

Mais uma vez, parabéns aos Professores de Braga presentes e a si, que escreve tão bem.
Só posso dizer uma coisa:

- Não se deixem enganar, colegas! Este não é acordo nenhum. É uma "bucha" com que tentam calar a vossa voz.

Ao lado de todos estes anos, fartei-me de ver e de ser vítima de jogos destes.
Na altura, até percebia. Os Professores estavam desmotivados e não aderiam às lutas sindicais.
Isso não acontece agora. Por isso, é necessário manter a chama, não esmorecer e obrigar os Sindicatos a cumprir a vontade da grande maioria dos seus associados e dos Professores em geral.

Ibel disse...

Braga sorriu cansada, mas saiu, "saiu à rua numa noite assim".
Conduziste muito bem a reunião e com muita calma e com muita presença e até com poesia e comoção contida.
Toma lá um beijo.