quarta-feira, 2 de abril de 2008

A balbúrdia "reformista", a Ministra e o Presidente

1.
Todos os dias acontecem, nesta ou naquela escola, casos de indisciplina mais ou menos graves, e, alguns, excepcionalmente graves. São problemas com os quais a escola, no seu conjunto, tem que saber lidar. E, para tal, tem que ter regras claras e simples, que possam ser aplicadas atempada e eficazmente, para a prevenir, para a minimizar, para a conter nos limites mínimos da razoabilidade. Não será tarefa simples nem rápida, que se faça por “decreto”, mas é uma realidade que temos de enfrentar.
Claro que para enfrentar este problema, o professor é um elemento fundamental. Mas não pode ser o único responsável, muito menos quando as coisas não correm mal. O professor tem que ter o suporte legal, que lhe permita agir com segurança, e contar com o apoio positivo e co-responsável da comunidade escolar. Não pode mais tolerar-se que o professor, quando as coisas correm mal, se transforme facilmente numa espécie de bode expiatório, como se fosse ele o “culpado”, quer tenha culpa ou não.
Quando actos de indisciplina grave atingem os limites do intolerável, então, sim, terá que ser estabelecida uma fronteira clara entre indisciplina e violência, ou até crime. E, só ultrapassada essa fronteira, é que deve entrar a polícia e os tribunais. E não há que hesitar na defesa desta fronteira, embora se reconheça, e tenha que se ter sempre em consideração que essa fronteira exigirá, muitas vezes, cuidada ponderação.
2.
Os casos recentes, de indisciplina e violência, foram muito badalados. E provaram isso mesmo: que são necessárias regras claras, simples, eficazes. E que elas não existem. Existe é uma balbúrdia de regulamentos díspares, que desresponsabilizam os pais, que desresponsabilizam os executivos, que desresponsabilizam a sociedade em geral, permitindo que, levianamente, se crucifique o “professor”, quando isso convém ao “status” estabelecido, e que esteja mais na moda. Pode, também, e em "alternativa", crucificar-se o aluno. É sempre mais simples apontar o dedo só a um.
O caso da Carolina Michaelis é bem ilustrativo disto tudo: o conselho executivo da escola parece que não existia; o director de turma, esse também não apareceu; muitos dos nossos comentaristas atiraram-se à professora, uns de forma mais pudorada, outros mesmo sem pudor algum; alguns pais “aproveitaram”, e arranjaram desculpas, culpando a professora também.
Com as imagens chocaram, a Comunicação Social insistiu e insistiu e insistiu. E, caso raro, desta vez insistiu bem. Foi um choque nacional. Muita gente acordou ao ver aquilo: os professores aumentaram o seu nível de indignação; os nossos alunos viram ali mesmo ao vivo o disparate que aquilo foi, e não gostaram do que viram, e não se revêem naquilo; os pais viram o que alguns jovens descontrolados são capazes de fazer, e aquilo a que um professor pode estar sujeito em questões de disciplina.
3.
Foi bom terem repetido tanto aquelas imagens chocantes. Isso fez com que o problema saltasse claramente para fora dos muros da escola, onde tem estado mais ou menos em “repouso”, mais ou menos escondido. Obrigou a pensar e à tomada de posições que, mesmo que contraditórias, ou apenas divergentes, deram o seu contributo para acordar um pouco o país.
E, muito importante - por mais que isso desagrade à senhora ministra e à política “educativa” do iluminado José Sócrates -, a divulgação deste caso, bem como a discussão que motivou, permitiu que ele se ligasse a problemas que vêm de trás, dando-lhes maior visibilidade. Vêm esses problemas de há muito tempo. Vêm de há mais de trinta anos.
A verdade, porém, é que esta ministra - cumprindo desastradamente a política economicista, arrogante e sem escrúpulos deste governo -, deu um “contributo” importante para potenciar, problemas antigos e latentes, que eles incendiaram.
Na verdade, a senhora ministra e os seus desautorizaram, desrespeitaram e tentaram “linchar” publicamente a dignidade do professor; vieram com o Estatuto da Carreira Docente duma forma injusta, apressada e arrogante, sem quererem ouvir ninguém; vieram com o Estatuto do Aluno, um documento que deveria servir como prova de insanidade, pela aberração que é, e pela permissividade irresponsável que contém; vieram com uma autêntica enxurrada de regulamentos e de normas inaplicáveis, sem sentido, incongruentes, disparatados; segundo elas, o professor é responsável por tudo e todos; o professor torna-se “escravo” a quem querem tirar a liberdade de pensar e de agir; o aluno deixa de ser responsável pelo seu comportamento; o aluno deixa de ser responsável pelo seu aproveitamento; o aluno pode faltar quando bem lhe apetecer e as vezes que lhe apetecer; os professores foram humilhados, até na comunicação social, por qualquer debitador de opinião sem fundamento.
Ora, esta loucura tem de parar. E tem que acabar. O país não aguenta mais uma irresponsabilidade assim. Uma mediocridade assim. Uma arrogância assim. Uma desvergonha assim.
4.
O país ficou chocado. O Presidente da República também. Ele assim o afirmou. E mandou convocar o Procurador Geral da República e representantes da plataforma sindical.
Eu acho que ele devia era chamar a ministra e, porque diz que tem consideração pessoal por ela, deveria aconselhá-la a sair com alguma dignidade, saindo pelo seu pé. Ou, então, chamar José Sócrates, com quem bem se tem entendido, e, em nome desse bom entendimento, deveria aconselhá-lo a mandar embora o peso morto que a ministra hoje já é.
Eu desejo as melhoras ao senhor Presidente da República. Desejo sinceramente que ele recupere depressa da gripe que o atacou. E desejo que ele ouça bem o Procurador Geral da República e os nossos representantes legais, os sindicatos.
Mas desejo mais ainda: que convoque a senhora ministra, e que sobreponha ao apreço pessoal que por ela tem o apreço que ele tem pelo país - e eu sei que tem. E isto só significa que tem que a chamar à razão; ou, então, que convoque José Sócrates e simplesmente lhe diga que com a Educação não se pode jogar o jogo pindérico de campanhas eleitorais a destempo.
Faça isso, senhor Presidente.
Faça a sua obrigação.
O país ficar-lhe-á grato.

7 comentários:

Rodrigo disse...

Faça isso,sr Presidente para não ser só uma figura de faz de conta.
Sabe, sr Presidente, a Senhora Ministra reúne hoje de novo com os PCEs. E ela anda a pressioná-los e eles já "abaixam" as calças...os tomates é que não se vêem.Também há saladas valem um desdém.

Ibel disse...

Eu também cumpro a minha obrigação: esvrevo-lhe um beijo e eu sei que gosta disso. Ou não?

Diana de sá disse...

Olhe que o título já é mesmo uma verdeira balbúrdia.Gostei!

TempoBreve disse...

Caro Rodrigo:

Eu gostaria de contar com a "atenção" do Presidente da República. Espera-se que se pronuncie e diga alguma coisa. E que não se refugie apenas na questão da insegurança.
Claro que os Conselhos Executivos estão a ser pressionados. Mas olhe que muitos até "gostam". Acho que não podemos contar mais com eles.
Obrigado pela sua visita.

TempoBreve disse...

Ibel!
Cada um que cumpra a obrgação que tem, e da melhor forma que puder.

TempoBreve disse...

Olá, Diana!

Ainda bem que gostou, não obstante a "balbúrdia" do título. Às vezes o título sai a correr. Mas acho que o não vou mudar.
Obrigado pela sua visita.
Até sempre.

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