quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Há sempre alguém que diz não

De cabeça erguida, é que se anda bem. De facto, começa a parecer habilidade rara, ou ousadia grave, andar de cabeça erguida, coisa que deveria ser vista como bem normal. Mas não, que anda a mais da gente de cabeça no chão. Há razões para isso, que o desconsolo aperta, a agressividade fere, a ignorância mata.
Tudo nos é servido com umas roupagens aprendidas à pressa, muito acomodadas em burocracias, inúteis e tontas, mas que entusiasmam servidores fiéis, a morder de furto, e cuja inteligência medem por resmas de papéis, e pelas estatísticas, apresentadas em gráficos de todos os tipos (que de um só era pouco), de todas as cores (para serem mais atractivos), com a idade da mãe, a idade do pai, a idade do filho, a idade do tio, a idade do cão, o que faz o cão, o que faz a mãe, o que faz o pai, o que faz o gato, a que horas faz.
Ora, quantas mais razões destas houver a fazerem pender a cabeça para o chão, mais razão e urgência há para a erguer bem alta.
Toca a levantar a cabeça. É que, se não, ainda no-la vergam mais.

Nota: Este texto é uma adaptação dum comentário meu feito em RFS - Outra vez no ar, de 16 de Outubro de 2007, no mineirodejales.blogspot.com, cuja leitura se recomenda.

4 comentários:

Nanny disse...

Nem sempre é fácil erguer a cabeça, mas às vezes sabe bem perder o olhar no horizonte... assim perdido mesmo...

Hoje saio daqui com o olhar perdido... encontrá-lo-ei, talvez, no chão.

Maria Isabel Fidalgo disse...

Hoje é dos dias em que andei não com os olhos no chão,não com a cabeça para baixo, mas com a cabeça e com os olhos metidos para dentro. E isto, vá-se lá saber porquê,pesa como aquilo que não tem peso e, por isso mesmo, pesa muito mais. Vá-se lá entender o paradoxo!
Ainda por cima, vou passar o meu fim-de-semana,a tratar de uma invenção maquiavélica, plano curricular de turma que, somada a outros requintes de malvadez dão" um cansaço, um supremíssimo, íssimo, íssimo, cansaço"," cansaço ele mesmo, cansaço..."
Mas para si sorrio com o sorriso de quem costuma andar de cabeça erguida e de nome a descoberto:)

TempoBreve disse...

Quando se pousa sentidamente no chão, o olhar também sabe voar. Você vai encontrá-lo. Acredito que sim.
Volte aqui, ao Tempo, e veja como eu, olhando para baixo, encontrei uma lembrança e um sentimento de que gosto muito.
:-)*

TempoBreve disse...

Isabel:

Há coisas que, de tão ocas, pesam muito mais. Mas só sente o seu peso quem lhe vê o vazio. Os burocratas do sucesso acrítico e à força andam contentes. Só há duas coisas que os ensombram: a sua incapacidade para perceberem a razão das críticas; e a sua impotência para as fazer calar. Coitados! Fizeram tanto esforço nas suas carreiras, juntando papéis!
Agradeço o sorriso de cabeça erguida.
:-)